19.2.13

Compartilhando e comentando texto do Juíz Federal, William Douglas

 

Serviço Público:

Servidores Públicos, Ou Seres Frustrados

 

 

Quero compartilhar o texto abaixo que recebi e, com o qual muito me identifico.

De fato, o serviço público muitas vezes por não ter condições apropriadas, passa uma impressão aos cidadãos, que não reflete a realidade.

E muitos servidores que gostariam de exercerem suas funções de acordo com suas capacidades, muitas vezes não conseguem, não por desídia, mas por pura falta de vontade das chefias do auto escalão. Nem falo das chefias imediatas, porque às vezes estas, querem fazer a coisa funcionar como tem de ser, mas também são tolhidas. Falo mesmo das chefias superiores, que não se preocupam em mudar algumas mínimas situações. Sobre tudo, quando se trata de um servidor com deficiência visual, como é meu caso, ou de qualquer outra deficiência que importe em pequenas mudanças de ordem física, informáticas, atitudinais, etc.. Prefere-se dizer que o deficiente não tem muita capacidade, do que oferecer as reais condições necessárias ao pleno desenvolvimento deste servidor.

É mais fácil taxar o servidor com deficiência, de inepto, o qual tem de fato certas necessidades especiais para desenvolver um bom trabalho, do que proporcionar tais mudanças, no sistema informatizado, por exemplo. Entre tantas outras pequenas alterações que são possíveis, mas não são promovidas por falta de vontade dos responsáveis, que poderiam com um pouco mais de esforço, promover tais alterações.

O texto abaixo é atribuído ao Juiz William Douglas, o qual muito admiro. Não sei precisar se de fato é da autoria dele, mas, é de qualquer forma, um texto muito bom.

 

 

 

 

FRUSTRAÇÕES NO SERVIÇO PÚBLICO

 

 

Vários são os servidores públicos que compartilham comigo sua dor e frustração. A impotência diante dos desmandos, a falta de valorização, a corrupção, a nefasta influência do aparelhamento político, o comando por estúpidos apadrinhados que não entendem nada e todas as outras questões que você, certamente, sabe como é.

Em meio a esse cenário, claro que existem bons chefes e excelentes profissionais ocupando cargos em comissão, mas não vamos fechar os olhos. Não adianta tentar ser politicamente correto, ou simpático, e fingir que não temos um problema que nós temos. Isso para não falar dos fofoqueiros, invejosos, das "panelas" etc. E pior é que, às vezes, o "sistema" nos reserva o indesejável papel de ser o capitão do mato, ou o carimbador, ou apenas aquele que dá ares de legitimidade ao que é imoral e ilegítimo. Caio Tácito disse certa vez que a arte da tirania é se valer de juízes ao invés de soldados... E isso acaba valendo para muitos cargos dentro do serviço público. E muitos se veem sem opção, sem saída. Bem, o que posso e vou fazer hoje é dizer como eu me protejo disso. Primeiro, eu penso o seguinte: minha relação com o Estado é uma, com os idiotas no poder é outra (não há só idiotas, eu repito), mas com as pessoas é ainda outra.

Por mais difícil que seja, tento praticar o que recomenda Efésios 6, versos de 5 a 10. Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo; Não servindo à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus; Servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens. Sabendo que cada um receberá do Senhor todo o bem que fizer, seja servo, seja livre. E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, deixando as ameaças, sabendo também que o Senhor deles e vosso está no céu, e que para com ele não há acepção de pessoas. No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. (Efésios 6:5-10) Segundo,

penso na ideia do metro quadrado. Eu cuido do meu metro quadrado. Nele o serviço público haverá de ser honesto, eficiente, educado, humano. Como dizia Theodore Roosevelt, devemos fazer o que podemos, com o que temos, onde nós estamos. Pus isso tudo no site www.revolucao.info - e tento fazer o melhor. Então, trabalho para que aquele que "cair nas minhas mãos" se considere uma pessoa de sorte. Esta pessoa terá o melhor que eu puder oferecer. De modo que tenho uma Vara elogiada, uma equipe formidável, etc. Ainda não cheguei no nível que gostaria, nem como cristão nem como servidor, mas tento. Acho que é o que nos resta, nos cabe, nos consola. Espero que você possa ficar feliz cuidando do seu metro quadrado. Estou certo que assim como o desânimo, a motivação também é contagiosa. Creio que podemos inocular noutros esse pedaço de sonho, de metro quadrado.

Mas o que temos nós a oferecer senão isso: um metro e um ideal, por mais quimérico e utópico que seja. A utopia nos protegerá do desencanto. Ou, como já me disseram ao tratar de dúvidas sobre a fidelidade amorosa do parceiro, "é melhor viver iludido do que desiludido". Eu convido você a ser extremamente ciente de tudo quanto aos fatos, mas se mantendo um sonhador quanto ao que fazemos. Cuide do seu metro quadrado e pronto.

Ainda existe um terceiro consolo, menos nobre, mas não menos respeitável: dali tiramos nosso sustento. Portanto, que levemos para casa o "leite das crianças" e honremos as calças que vestimos.

Mas me permita contar algo que aconteceu quando eu era Delegado de Polícia na 17ª D.P., em São Cristovão, há exatos 20 anos, em 1993. Houve um acidente de trânsito com um ônibus e eu, entusiasmado, infante, 1º colocado do 1º concurso externo para Delegado em talvez uns 20 anos, naturalmente, ia aos locais de homicídio, acidente, tudo que tinha "direito". Vivi algumas histórias interessantes. Aprendi a valorizar mais a vida vendo como ela escapa da mão num segundo, num atropelamento, ou acidente, ou roubo, ou vingança. Vi como é difícil aplicar nossas leis em situações reais. Vi uma mãe me pedir para praticar o que seria um abuso de autoridade, deixando seu filho passar uma noite na cadeia (na antessala dela, para ser mais exato), e lhe disse que não, mesmo achando, em meu íntimo, que a sabedoria materna não estava falhando;

descobri, depois de algum tempo, que o melhor policial de minha equipe era um X-9, e o quanto seria complicado resolver isso. Enfim, foi um período bem interessante. Mas porque conto isso?

Volto ao acidente. Quando cheguei um Oficial do Corpo de Bombeiros, capacete branco, ao mesmo tempo profissionalmente calmo, mas humanamente angustiado, uniforme tingido de sangue, retirava do ônibus uma criança de talvez um ano e meio ou dois. Ele olhou para mim e disse: "A gente ganha mal e ainda tem que ver isso, criança sangrando". Ele fez o que devia, e partiu sem que eu pudesse fazer nada senão compartilhar um olhar triste. Sua frase me acompanhou semanas, talvez meses, me torturando. Ela tinha uma dose de verdade que me angustiava. Finalmente, um bom tempo depois, me veio à mente a resposta que faltou naquele instante: "Não, Oficial, a gente ganha mal, mas pode ajudar uma criança sangrando". Infelizmente não tive tirocínio para ter esta resposta à mão, ou, melhor, na ponta da língua, para consolar aquele modesto herói incomodado.

Mas guardo essa resposta cada vez que ser servidor me incomoda. Não me considero nenhum herói, anoto, sou apenas mais um metro quadrado, e nem mesmo dos melhores, mas tento. Eu sei de um amigo com tais frustrações. Ele, Delegado, já salvou duas pessoas sequestradas, cujo local de cativeiro estourou, salvado as vítimas, depois de se sair bem no prévio tiroteio. Os sequestradores de fuzil, os policiais, nem tanto. Isso não é coisa de capitão do mato, com certeza.

Quando me dói ser juiz, eu fico a me recordar dos tiros certeiros, das decisões nobres, das pessoas que resgatei dos tipos de cativeiro que eu tenho poder para, às vezes, tirar alguém.

Ganha-se mal, meus caros amigos, mas podemos ajudar - lá, muito de vez em quando - alguma gente. Que isso nos sirva de consolo. E que não desanimemos: um dia retomaremos o serviço público dos incompetentes, dos omissos, dos tíbios, e o devolveremos ao povo, finalmente.

 

 

 

William Douglas

 

William Douglas é juiz federal com mestrado em Direito e pós-graduação

em Políticas Públicas e Governo. Atua também como professor em cursos de

extensão e preparatórios.

 

 

 

É meu caro e nobre juiz, ou melhor, Juiz, pois você é de fato um juiz com J maiúsculo. Mas de fato seu anseio, é uma quimera, uma utopia, uma doce e bela ilusão. Todavia, infelizmente ou felizmente, é o que nos resta neste país de faz de conta.

 

 

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